sexta-feira, 13 de abril de 2012

domingo, 28 de novembro de 2010

Trabalho dos meus sonhos....


Fui convidada para trabalhar em outro hospice. Este somente de pacientes oncológicos. É o tipo de paciente que eu gosto de cuidar.
Passei por uma seleção e fui escolhida.

Agora, espero escrever sobre os pacientes de lá, e acho que terei muita coisa para colocar no papel. É, eu ando com o moleskini da Alma na bolsa.

(imagem: Rene Magritte)

Ah....

hoje foi meu aniversário!

Sobre a minha doença...

Estou participando da oficina literária da Claudia Letti. Uma das aulas chama-se Limpeza da Chaminé. Escrevi sobre a doença que tive. Vou colar aqui para quem quiser saber...

LIMPEZA DE CHAMINÉ DA MONICA

Comecei a limpar a minha chaminé no início de dezembro do ano passado quando descobri que estava com câncer de mama. Mais exatamente quando o médico que me examinou inicialmente disse que a lesão que eu tinha “era preocupante”.

Lembro-me que o consultório ficava no meio do quarteirão, algumas ruas acima do hospital onde eu trabalho. Havia deixado meu carro estacionado lá e subi andando até a clínica dele.

Saí do prédio com várias solicitações de exames na mão e fui caminhando até o ponto de taxi da esquina, chorando, assustada. Foi a única vez que chorei. E foi quando eu descobri uma força que eu jamais imaginei possuir. O susto tinha ido embora. E fui planejando os meus passos a partir daquele momento. Precisei de um papel para escrever, óbvio, uma lista. Primeira coisa que escrevi: não vou sofrer.

Cheguei ao laboratório, onde fiz mamografia, ultrassonografia de mamas e, por fim, biópsia da lesão, acompanhada da minha irmã, para quem eu havia telefonado e que já sabia que eu suspeitava estar com câncer. Segunda coisa que escrevi na minha lista: não quero que as pessoas, principalmente minha família, sofram, mas preciso dividir com elas este momento.

Era uma sexta-feira.

Passei um final de semana angustiante, aguardando o resultado da biópsia e tentando localizar a mastologista que me acompanhava antes. Havia quatro anos que eu não voltava nela. Um verdadeiro absurdo, ainda mais sendo eu uma médica que faz uma especialidade oncológica – cirurgia de cabeça e pescoço. Liguei para alguns amigos para contar o que acontecia, inclusive colegas de trabalho e pessoas que contavam comigo para procedimentos durante a semana seguinte. Surpresa! Aquelas que eu imaginava que nem se importariam muito ficaram extremamente preocupadas comigo e me acompanharam durante todo o meu processo de tratamento. Outras, de quem eu esperava suporte emocional e acolhimento, sumiram. Nova descoberta: nem todos agem como você agiria, nem todos suportam conviver com pessoas próximas doentes. Mas era impossível aceitar aquilo naquele momento. Terceira coisa que escrevi na minha lista: não espere que as pessoas pensem e ajam como você.

Laudo histológico pronto, fui encaminhada para a oncologista. Procurei uma colega que eu já conhecia o trabalho. Sério. Ela é muito séria também, mas acolhedora e carinhosa.

Comecei a fazer quimioterapia neo-adjuvante no dia 30 de dezembro, com a intenção de diminuir o tamanho do tumor, embora o tipo histológico dele não respondesse bem às drogas. Minha mãe e minha irmã ficaram comigo na minha primeira sessão. Seriam quatro, com um intervalo de três semanas entre elas. Quarta coisa que escrevi na minha lista: preciso ter paciência, porque agora eu era a paciente. E me descobri uma paciente com bastante paciência e uma confiança inexplicável.

Sofri poucos efeitos das drogas, fora a queda total dos cabelos, que era uma coisa que não me preocupava, pois era inevitável. Mal estar geral, náuseas, dores no corpo e apenas um episódio de vômitos durante esta primeira parte do tratamento. Sinceramente, saí em vantagem.

O tumor, para surpresa geral, havia diminuído muito seu tamanho, aproximadamente 80%. E daí escrevi a quinta coisa na minha lista: nem tudo pode ser explicado pela ciência.

Operação feita, pós-operatório bem sucedido, muitas pessoas queridas me visitaram no hospital e eu fiquei em total euforia. Não sei até hoje se foi efeito do opioide que eu tomei, ou se foi mesmo por felicidade de não dormir mais acompanhada daquele tumor.

Um mês depois comecei a quimioterapia adjuvante, que faz parte do protocolo de tratamento do câncer de mama. Tive uma reação alérgica importante e achei que fosse morrer naquele momento. Mudança de planos, mudança de drogas, quimioterapia semanal por doze semanas. Foi o único momento que fiquei desolada. Mas passou logo, porque me lembrei da primeira coisa que havia escrito na minha lista.

Minhas veias aguentaram heroicamente a aplicação semanal de quimioterápico. E o meu humor continuava ótimo. A confiança inabalada.

Depois fui para a radioterapia, que eu chamava para meus pacientes de cabeça e pescoço de “mal necessário”. Um local cheio de pacientes com um astral muito bom, todos confiantes no tratamento que faziam. E uma equipe igualmente otimista. Correu tudo bem, com muita tranquilidade, pouca queimadura na pele, mas…. Peguei minha lista e escrevi: efeitos ruins da radioterapia na cicatrização – tenho que aceitar. Eles estão ocorrendo agora. Paciência.

Voltei ao trabalho de cuidados paliativos que fazia num hospital privado. Minha primeira paciente foi a mãe de uma enfermeira que estava morrendo de câncer de mama. Respirei fundo e fiz meu trabalho. Bem feito. Acompanhei a morte da paciente, assim como acolhi os filhos. Sexto item escrito na lista: tenho que continuar sendo profissional.

Foram dez meses de tratamento. Dez meses sem pegar num bisturi. Eu chamei de período sabático forçado. Mas foi uma limpeza de chaminé.

Exorcizei meus demônios, exercitei minha paciência, perdoei muitas pessoas que não me quiseram por perto quando eu mais precisava, entendi a dificuldade delas de não conseguir conviver com pessoas próximas doentes, perdoei a mim mesma. E escrevi inúmeras listas. Agora começo uma nova fase: cuidar de mim, com mais atenção, para poder cuidar dos outros.


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Atropelamento


Pois há quase um ano atrás descubro que estou com câncer de mama. Eu era uma paciente de cuidados paliativos, se você seguir a definição ao pé da letra.

Hoje, quase um ano depois, tratada e bem, vou começar a relatar para quem quiser ler como foi todo o meu processo de tratamento.


(Imagem: Richard Avedon)

domingo, 23 de maio de 2010

Tanto

tempo sem entrar aqui, mais de ano.
Estou sem trabalhar há cinco meses, nada de cirurgias, nem cpal.
Sabe aquelas coisas que você acha que nunca irão acontecer com você? Pois é, acontecem.

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Mas eu volto, sim.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Tempo...


Tanto tempo sem escrever, tanto tempo sem ler, tanto tempo que não reservo um tempo para mim mesma...



(imagem do filme O Signo Da Cidade)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Não sei...


ando muito emotiva. Talvez por tal motivo não tenho conseguido escrever aqui. Mas no sábado perdi dois pacientes em fase terminal e não fiquei muito bem. O trabalho foi bacana, a família foi bem acolhida por toda a equipe, mas não sei...
Ontem passei minha última visita numa senhora de 97 anos que a família resolveu levar para um asilo japonês. Ela chorava muito, não queria ir. Segurou minha mão, fez uma reverência e me agradeceu, chorando. saí do quarto dela aos prantos.
Não sei....talvez seja por causa da proximidade do final de ano. Sempre fico mais emotiva.
Não sei...
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(imagem: Vicente Santander)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Daí....


que eles não eram casados no papel, mas era o grande sonho dela.
Ele era o paciente, tinha um câncer avançado que deformava a sua face e o seu pescoço.
Daí surgiu a pergunta: - Vocês não gostariam de se casar? Poderíamos pedir ao juiz para pular alguma etapa, como os proclamas. Casariam-se no civil e religioso, pois era católicos.
Empolgação geral. Ela ficou iluminada, ele sorria acanhado.
O juiz atendeu ao nosso pedido e aceitou realizar a cerimônia sem os proclamas, pois ele estava com sua doença muito avançada e talvez não houvesse tempo.
Cabelo arrumado, foi uma correria para arranjar um vestido para ela. Não tinha nenhum. Compraram um azul e ela ficou toda feliz.
Casaram-se no civil. Ela exibia a certidão para todo mundo dizendo que agora sim era uma mulher casada.
Uma semana depois foi realizada a cerimônia religiosa. O padre foi até lá, teve bolo branco, com direito a bonequinhos de noivos e tudo o mais. Eles choraram, ela de branco, ele de terno improvisado e gravata. Ganharam as alianças dos colegas de trabalho dele. Brinde cruzando as taças. Todos felizes, tudo perfeito.
Uma semana depois ele foi dormir e não acordou mais. Não sofreu, não sangrou, não agonizou. Apenas dormiu. Para sempre.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Pausa...


Falta de histórias? Não, não foi mesmo. Foi pura falta de tempo para escrever qualquer linha. E, para minha decepção, quando finalmente venho tirar a poeira e tentar um retorno mais inspirado, leio um comentário de alguém se dizendo deprimido após ler o que eu escrevi.
Sinto, mesmo.
Muitas histórias se passaram, muitas pessoas já partiram, outras ainda partirão, com ou sem minha pesença. Et alors....eu retorno ao espaço.

Pausa...

quarta-feira, 6 de agosto de 2008


Ele era magro mesmo antes de adoecer. Magro e deprimido.
Foi meu paciente de ambulatório, operei seu primeiro câncer.
Quatro filhos, três deles eram mulheres e que não se entendiam. Pai que nunca havia beijado os filhos.
Mau marido, eram separados. Ele morava no mesmo terreno que ela, mas não coabitavam a mesma casa, cada um tinha a sua.
Entrou lá porque a família, mesmo tão zelosa com ele, não suportava mais os cuidados com ele, que estava chagando ao final da vida e com uma doença malígna. É, algumas doenças malígnas cheiram mal.
Cuidamos dele, do odor do seu tumor, da sua dor. E cuidamos da dor de seus filhos e de sua ex mulher também.
Eu sabia que ele morreria no meu plantão. E assim aconteceu.
Ficamos juntos do começo ao fim...

domingo, 13 de abril de 2008

Ele era...


...um senhor de 85 anos, magrinho, pálido por conta do câncer gástrico que lhe causava uma anemia crônica. Parecia o mestre Yoda, do Stars Wars. Sempre quieto, poucas vezes conversava com os outros pacientes.
Mas havia um deles que ele não suportava. Um outro idoso, este sim falava pelos cotovelos, e que era o queridinho de todos.
Mas, mestre Yoda tornou-se queridinho também. Todo final de semana ia para casa. Na sexta, logo cedo, já estava arrumadinho. Sempre combinando o sapato com a camisa e não permitia que qualquer pessoa o ajudasse a calçá-lo.
Depois, ficava impaciente com sua cuidadora, querendo saber a cada cinco minutos, se seu filho já estava chegando.
Eu passei muitas sextas-feiras com eles dois, mais as cuidadoras. Gostava de conversar com eles e até de apartar a briga que de vez em quando saía.
Numa segunda-feira ensolarada, mestre Yoda chegou da casa de seu filho. Sempre ficava triste às segundas-feiras, porque tinha saudade de sua casa. E também de uma mulher que amava, mas que sequer sabia que ele estava doente. O filho não deixou que isto acontecesse. Bem que tentamos interceder, porém não deu tempo.
Mestre Yoda sentou-se na varanda, debaixo de um sol quentinho e de um céu azul de brigadeiro, defronte a bela amoreira que tem no jardim da frente da casa.
- Que sol gostoso!
Foram suas últimas palavras. A cuidadora desceu para pegar alguma coisa, mas ao retornar ele estava com a cabeça caída de lado. Parecia dormir.
Ela achou que estava muito quieto, mas ele havia partido. Como um passarinho.
Que a força esteja com ele!

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Every breath you take...


Mulher jovem, da minha idade, com câncer avançado e incurável de mama. Ela sabe, mas não entende. Ou não aceita. Ora na fase de revolta, ora na fase de barganha.

Passou um período agredindo a todos. Eu precisava falar com ela, mas estava esgotada, sem energia.

-Melhor não conversar com ela, doutora. Você não está bem e pode ficar pior.

-Ela também pode ficar pior, caso ninguém fale com ela, respondi ao enfermeiro preocupado comigo

Respiro fundo e subo. Puxo a cadeira, mais baixa que sua cama, e me sento. Ela não poderia desviar o olhar, pois nossos olhos estavam no mesmo nível.

Falamos sobre tudo: religião, espiritualidade, casamento desfeito, filhos, amores novos, amores velhos, sofrimentos, dores. Daí veio a pergunta, subitamente, porém já esperada por mim:
-Vou melhorar deste tumor, doutora?

-Não vai, respondi olhando nos seus olhos.

-Posso morrer assim?

-Pode, sim.

-Mas de Deus quiser pode ser diferente, não pode?

-Sim, pode. Pode ser sem dor, sem mal estar, sem sofrimento. nem para você, nem para os que ama. É só continuarmos a cuidar de você como estamos fazendo. O que acha?

-Assim eu fico tranqüila. Posso ir em paz.

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Sinto que agora possuímos um link, e que a minha presença será importante quando ela entrar em processo de morte.

Depois da conversa que tivemos, ficamos em paz. Nós duas.

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(imagem: Marc Chagall. Não poderia ser outro para ilustrar este post)


segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

De volta...


Precisei renovar minha senha. Havia tempos que não postava por aqui.

Agora fico somente por aqui.

O Et alors estava às moscas e sem motivos para existir.


segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Lições, idéias, fragmentos...


Lições a fazer, idéias para escrever no papel, os fragmentos que passam por minha cabeça, até dormindo...

Neste final de semana encontrei pessoas bacanas ligadas aos cuidados paliativos numa imersão sobre o tema. Foi ótimo e deu para sacar que muitos continuam equivocados, mas outros abraçaram a causa.

Ou seja, cuidados paliativos, no Brasil, é assunto irreversível.

Bom para nós, paliativistas de cérebro e coração, e para os pacientes que iremos atender. O tempo nos dirá...


(imagem de Eve Arnold, de 1959; ela foi a primeira mulher a entrar para a agência Magnum)

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Cansaço...

(Salvador Dalí)


Olhos fechados. Não dorme, descansa. Respira bem, o coração está descompassado, a barriga enorme...

À noite se agita. Medo? Provavelmente. Ele não dorme de jeito nenhum, como se estivesse esperando por ela. E certamente está. Ela pode chegar a qualquer momento. Para ele ou para nós. Quem saberá dizer?

sábado, 10 de novembro de 2007

Fragmentos...

Não tinha dor. Sempre deitado, pois não lhe restavam forças sequer para sentar. Sempre tranqüilo, sorrindo para todos. Principalmente para mim. Fiz seu diagnóstio, infelizmente já em fase avançada. Desobstrui suas vias respiratórias, abrindo sua traquéia e introduzindo uma cânula para que não faltasse o ar e morresse sufocado.
Ontem começou a tossir. Muita secreção pulmonar. Seu estômago parou de funcionar e o suco gástrico começou a voltar. Tive de suspender sua alimentação pela sonda.
- Seu corpo não necessita mais de alimento, expliquei para sua aflita, mas conformada esposa. Pareceu-em que ela entendeu, muito embora alimentar um doente signifique para seu familiar o mesmo que dar amor.
Enfim...
Ele me olhou. Vi que agonizava, que não suportava mais nem respirar. Entendi aquele olhar como uma súplica. demos para ele medicamento para relaxar.
Passou a noite com sua esposa e filho. Partiu hoje cedo. Foi fazer ternos em algum lugar, não sei em qual andar. Acho que foi para o de cima. Ele era alfaiate...

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

De repente...

um cansaço.
Acho que é um pouco de tristeza aguda.
Logo passa...

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Pelicano...

( Cartier-Bresson)

Tivemos um paciente muito alto, muito magro e com profundos olhos de um azul desbotado. Além disso, ele usava óculos de fundo de garrafa, o que fazia com que seus olhos ficassem ainda mais em evidência.
Ele esteve internado uma primeira vez, quando ainda estava forte e se alimentava bem, mas sabíamos que seu tumor crescia silenciosamente. Ele também sabia disto.
Bem, retornou para lá, já bastante emagrecido, com muitas dores por conta das inúmeras metástases e nós conseguimos controlar sua dor. Ele até chegou a ir para sua casa ver seu cão, um bichinho tão pequenino, de nome Negão. Foi se depedir...
Quando já estava debilitado, sem forças para sequer sentar-se, ficava deitado com a cabeceira da cama elevada e adormecia. Parece que sonhava...Sua esposa colocava travesseiros muito altos e eu perguntei se não seria melhor ela retirar um deles, que talvez ele ficasse mais confortável.
-Não, doutoura. O meu pelicano pode quebrar o pescoço. Espia só!
E retirou um dos travesseiros, com ele dormindo. Ele ficou com o pescoço duro e a cabeça inclinada para a frente, fazendo um movimento de vai e vem com a cabeça, para a frente e para trás. Achei engraçado! E ela me disse:
-Não parece mesmo um pelicano, doutora?