quarta-feira, 6 de agosto de 2008


Ele era magro mesmo antes de adoecer. Magro e deprimido.
Foi meu paciente de ambulatório, operei seu primeiro câncer.
Quatro filhos, três deles eram mulheres e que não se entendiam. Pai que nunca havia beijado os filhos.
Mau marido, eram separados. Ele morava no mesmo terreno que ela, mas não coabitavam a mesma casa, cada um tinha a sua.
Entrou lá porque a família, mesmo tão zelosa com ele, não suportava mais os cuidados com ele, que estava chagando ao final da vida e com uma doença malígna. É, algumas doenças malígnas cheiram mal.
Cuidamos dele, do odor do seu tumor, da sua dor. E cuidamos da dor de seus filhos e de sua ex mulher também.
Eu sabia que ele morreria no meu plantão. E assim aconteceu.
Ficamos juntos do começo ao fim...

domingo, 13 de abril de 2008

Ele era...


...um senhor de 85 anos, magrinho, pálido por conta do câncer gástrico que lhe causava uma anemia crônica. Parecia o mestre Yoda, do Stars Wars. Sempre quieto, poucas vezes conversava com os outros pacientes.
Mas havia um deles que ele não suportava. Um outro idoso, este sim falava pelos cotovelos, e que era o queridinho de todos.
Mas, mestre Yoda tornou-se queridinho também. Todo final de semana ia para casa. Na sexta, logo cedo, já estava arrumadinho. Sempre combinando o sapato com a camisa e não permitia que qualquer pessoa o ajudasse a calçá-lo.
Depois, ficava impaciente com sua cuidadora, querendo saber a cada cinco minutos, se seu filho já estava chegando.
Eu passei muitas sextas-feiras com eles dois, mais as cuidadoras. Gostava de conversar com eles e até de apartar a briga que de vez em quando saía.
Numa segunda-feira ensolarada, mestre Yoda chegou da casa de seu filho. Sempre ficava triste às segundas-feiras, porque tinha saudade de sua casa. E também de uma mulher que amava, mas que sequer sabia que ele estava doente. O filho não deixou que isto acontecesse. Bem que tentamos interceder, porém não deu tempo.
Mestre Yoda sentou-se na varanda, debaixo de um sol quentinho e de um céu azul de brigadeiro, defronte a bela amoreira que tem no jardim da frente da casa.
- Que sol gostoso!
Foram suas últimas palavras. A cuidadora desceu para pegar alguma coisa, mas ao retornar ele estava com a cabeça caída de lado. Parecia dormir.
Ela achou que estava muito quieto, mas ele havia partido. Como um passarinho.
Que a força esteja com ele!

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Every breath you take...


Mulher jovem, da minha idade, com câncer avançado e incurável de mama. Ela sabe, mas não entende. Ou não aceita. Ora na fase de revolta, ora na fase de barganha.

Passou um período agredindo a todos. Eu precisava falar com ela, mas estava esgotada, sem energia.

-Melhor não conversar com ela, doutora. Você não está bem e pode ficar pior.

-Ela também pode ficar pior, caso ninguém fale com ela, respondi ao enfermeiro preocupado comigo

Respiro fundo e subo. Puxo a cadeira, mais baixa que sua cama, e me sento. Ela não poderia desviar o olhar, pois nossos olhos estavam no mesmo nível.

Falamos sobre tudo: religião, espiritualidade, casamento desfeito, filhos, amores novos, amores velhos, sofrimentos, dores. Daí veio a pergunta, subitamente, porém já esperada por mim:
-Vou melhorar deste tumor, doutora?

-Não vai, respondi olhando nos seus olhos.

-Posso morrer assim?

-Pode, sim.

-Mas de Deus quiser pode ser diferente, não pode?

-Sim, pode. Pode ser sem dor, sem mal estar, sem sofrimento. nem para você, nem para os que ama. É só continuarmos a cuidar de você como estamos fazendo. O que acha?

-Assim eu fico tranqüila. Posso ir em paz.

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Sinto que agora possuímos um link, e que a minha presença será importante quando ela entrar em processo de morte.

Depois da conversa que tivemos, ficamos em paz. Nós duas.

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(imagem: Marc Chagall. Não poderia ser outro para ilustrar este post)


segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

De volta...


Precisei renovar minha senha. Havia tempos que não postava por aqui.

Agora fico somente por aqui.

O Et alors estava às moscas e sem motivos para existir.


segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Lições, idéias, fragmentos...


Lições a fazer, idéias para escrever no papel, os fragmentos que passam por minha cabeça, até dormindo...

Neste final de semana encontrei pessoas bacanas ligadas aos cuidados paliativos numa imersão sobre o tema. Foi ótimo e deu para sacar que muitos continuam equivocados, mas outros abraçaram a causa.

Ou seja, cuidados paliativos, no Brasil, é assunto irreversível.

Bom para nós, paliativistas de cérebro e coração, e para os pacientes que iremos atender. O tempo nos dirá...


(imagem de Eve Arnold, de 1959; ela foi a primeira mulher a entrar para a agência Magnum)

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Cansaço...

(Salvador Dalí)


Olhos fechados. Não dorme, descansa. Respira bem, o coração está descompassado, a barriga enorme...

À noite se agita. Medo? Provavelmente. Ele não dorme de jeito nenhum, como se estivesse esperando por ela. E certamente está. Ela pode chegar a qualquer momento. Para ele ou para nós. Quem saberá dizer?

sábado, 10 de novembro de 2007

Fragmentos...

Não tinha dor. Sempre deitado, pois não lhe restavam forças sequer para sentar. Sempre tranqüilo, sorrindo para todos. Principalmente para mim. Fiz seu diagnóstio, infelizmente já em fase avançada. Desobstrui suas vias respiratórias, abrindo sua traquéia e introduzindo uma cânula para que não faltasse o ar e morresse sufocado.
Ontem começou a tossir. Muita secreção pulmonar. Seu estômago parou de funcionar e o suco gástrico começou a voltar. Tive de suspender sua alimentação pela sonda.
- Seu corpo não necessita mais de alimento, expliquei para sua aflita, mas conformada esposa. Pareceu-em que ela entendeu, muito embora alimentar um doente signifique para seu familiar o mesmo que dar amor.
Enfim...
Ele me olhou. Vi que agonizava, que não suportava mais nem respirar. Entendi aquele olhar como uma súplica. demos para ele medicamento para relaxar.
Passou a noite com sua esposa e filho. Partiu hoje cedo. Foi fazer ternos em algum lugar, não sei em qual andar. Acho que foi para o de cima. Ele era alfaiate...