domingo, 3 de fevereiro de 2008

Every breath you take...


Mulher jovem, da minha idade, com câncer avançado e incurável de mama. Ela sabe, mas não entende. Ou não aceita. Ora na fase de revolta, ora na fase de barganha.

Passou um período agredindo a todos. Eu precisava falar com ela, mas estava esgotada, sem energia.

-Melhor não conversar com ela, doutora. Você não está bem e pode ficar pior.

-Ela também pode ficar pior, caso ninguém fale com ela, respondi ao enfermeiro preocupado comigo

Respiro fundo e subo. Puxo a cadeira, mais baixa que sua cama, e me sento. Ela não poderia desviar o olhar, pois nossos olhos estavam no mesmo nível.

Falamos sobre tudo: religião, espiritualidade, casamento desfeito, filhos, amores novos, amores velhos, sofrimentos, dores. Daí veio a pergunta, subitamente, porém já esperada por mim:
-Vou melhorar deste tumor, doutora?

-Não vai, respondi olhando nos seus olhos.

-Posso morrer assim?

-Pode, sim.

-Mas de Deus quiser pode ser diferente, não pode?

-Sim, pode. Pode ser sem dor, sem mal estar, sem sofrimento. nem para você, nem para os que ama. É só continuarmos a cuidar de você como estamos fazendo. O que acha?

-Assim eu fico tranqüila. Posso ir em paz.

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Sinto que agora possuímos um link, e que a minha presença será importante quando ela entrar em processo de morte.

Depois da conversa que tivemos, ficamos em paz. Nós duas.

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(imagem: Marc Chagall. Não poderia ser outro para ilustrar este post)


segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

De volta...


Precisei renovar minha senha. Havia tempos que não postava por aqui.

Agora fico somente por aqui.

O Et alors estava às moscas e sem motivos para existir.


segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Lições, idéias, fragmentos...


Lições a fazer, idéias para escrever no papel, os fragmentos que passam por minha cabeça, até dormindo...

Neste final de semana encontrei pessoas bacanas ligadas aos cuidados paliativos numa imersão sobre o tema. Foi ótimo e deu para sacar que muitos continuam equivocados, mas outros abraçaram a causa.

Ou seja, cuidados paliativos, no Brasil, é assunto irreversível.

Bom para nós, paliativistas de cérebro e coração, e para os pacientes que iremos atender. O tempo nos dirá...


(imagem de Eve Arnold, de 1959; ela foi a primeira mulher a entrar para a agência Magnum)

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Cansaço...

(Salvador Dalí)


Olhos fechados. Não dorme, descansa. Respira bem, o coração está descompassado, a barriga enorme...

À noite se agita. Medo? Provavelmente. Ele não dorme de jeito nenhum, como se estivesse esperando por ela. E certamente está. Ela pode chegar a qualquer momento. Para ele ou para nós. Quem saberá dizer?

sábado, 10 de novembro de 2007

Fragmentos...

Não tinha dor. Sempre deitado, pois não lhe restavam forças sequer para sentar. Sempre tranqüilo, sorrindo para todos. Principalmente para mim. Fiz seu diagnóstio, infelizmente já em fase avançada. Desobstrui suas vias respiratórias, abrindo sua traquéia e introduzindo uma cânula para que não faltasse o ar e morresse sufocado.
Ontem começou a tossir. Muita secreção pulmonar. Seu estômago parou de funcionar e o suco gástrico começou a voltar. Tive de suspender sua alimentação pela sonda.
- Seu corpo não necessita mais de alimento, expliquei para sua aflita, mas conformada esposa. Pareceu-em que ela entendeu, muito embora alimentar um doente signifique para seu familiar o mesmo que dar amor.
Enfim...
Ele me olhou. Vi que agonizava, que não suportava mais nem respirar. Entendi aquele olhar como uma súplica. demos para ele medicamento para relaxar.
Passou a noite com sua esposa e filho. Partiu hoje cedo. Foi fazer ternos em algum lugar, não sei em qual andar. Acho que foi para o de cima. Ele era alfaiate...

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

De repente...

um cansaço.
Acho que é um pouco de tristeza aguda.
Logo passa...

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Pelicano...

( Cartier-Bresson)

Tivemos um paciente muito alto, muito magro e com profundos olhos de um azul desbotado. Além disso, ele usava óculos de fundo de garrafa, o que fazia com que seus olhos ficassem ainda mais em evidência.
Ele esteve internado uma primeira vez, quando ainda estava forte e se alimentava bem, mas sabíamos que seu tumor crescia silenciosamente. Ele também sabia disto.
Bem, retornou para lá, já bastante emagrecido, com muitas dores por conta das inúmeras metástases e nós conseguimos controlar sua dor. Ele até chegou a ir para sua casa ver seu cão, um bichinho tão pequenino, de nome Negão. Foi se depedir...
Quando já estava debilitado, sem forças para sequer sentar-se, ficava deitado com a cabeceira da cama elevada e adormecia. Parece que sonhava...Sua esposa colocava travesseiros muito altos e eu perguntei se não seria melhor ela retirar um deles, que talvez ele ficasse mais confortável.
-Não, doutoura. O meu pelicano pode quebrar o pescoço. Espia só!
E retirou um dos travesseiros, com ele dormindo. Ele ficou com o pescoço duro e a cabeça inclinada para a frente, fazendo um movimento de vai e vem com a cabeça, para a frente e para trás. Achei engraçado! E ela me disse:
-Não parece mesmo um pelicano, doutora?